Sónia Lopes – Campeonato da Europa 24 Horas

Para muitos as corridas de 24 horas a solo são a mais dura forma de competição no ciclismo de montanha. Recentemente disseram-me ao ouvido que estas corridas eram tão duras que seria impossível viver delas. Pois bem, mas este é o meu querido “mundo dos pedais” e contrariando alguns “Velhos do Restelo” que persistem em elevar a sua voz quando o sucesso espreita à porta dos teimosos, é para este mundo que vivo e é dele também que tento sobreviver.

Depois de algumas épocas de azar cheguei à conclusão que em termos competitivos quanto mais duras fossem as condições melhor seria a minha prestação, esta é também a única explicação da minha continuidade num desporto que me deixa já algumas marcas no corpo. Foi pois com naturalidade que me dediquei às 24 horas, onde tenho vindo a alcançar resultados de que muito me orgulho.

Já em 2011 o desejo de competir fora de Portugal, procurando novos desafios, esteve presente tendo sido adiado apenas e só por falta de orçamento disponível, consequência de incumprimentos contratuais, é assim que gosto de nomear os aspectos menos positivos que muito me ensinaram e motivaram a trabalhar mais e melhor.

Contra a uma conjectura económica pouco favorável apontei ainda assim, como principal objectivo para 2012, ano de aprendizagem, os Campeonatos da Europa de 24 horas em NewCastleton no Reino Unido. Uma vez mais o papel do inqualificável Pedro Maia foi preponderante na minha preparação e prestação final, tendo estado ele presente no circuito de NewCastleton em 2011 onde alcançou o décimo posto da tabela classificativa na classe de master, o Pedro foi uma vez mais o meu grande trunfo e por muito que escreva ou faça será sempre escassa a forma de agradecimento, resta-me pois continuar a trabalhar sobre a sua alçada.

Como preparação para este Campeonato da Europa, enfrentei a Armada Espanhola e o seu Open XCR, provas de 12 horas que serviram de treino e me trouxeram momentos inesquecíveis de glória e respeito. Confesso agora ter errado ao participar na terceira etapa, uma semana apenas antes do meu grande objectivo. Penso que o resultado final do Europeu teria sido outro se não tivesse gasto em Múrcia o que me fez falta em NewCastleton mas esta vida é mesmo assim aprender até morrer e quem sabe até mesmo depois.

Newcastleton é uma pequena aldeia escocesa pela qual me apaixonei, eu e o meu mais que tudo João Aragão que caso exista um dia o troféu de Best Pit Manager será com certeza um forte candidato ao título mundial, tal é a sua vasta experiência nacional e internacional, gigantesco profissionalismo e incompreensível paixão por este mundo, só lhe falta mesmo pedalar por mim e por quem tem a sorte de por ele ser assistido. A Escócia é hoje uma paixão da família e contamos os dias para o regresso se possível na companhia do membro mais novo o “GRANDE” MARTIM. De referir que a organização contemplou os mais novos com duas provas, uma de doze e outra de 24 minutos.

Apesar da importância da corrida e do seu peso na minha época foi com inesperada tranquilidade que alinhei à partida no centro da aldeia. Cores, aromas, caras, vestes e formas de estar completamente diferentes do que eram para mim até agora habituais ver neste tipo de evento. Desde conduzirem, segundo eles no lado certo das vias a esquerda, até uma educação e respeito por tudo e todos que jamais tinha encontrado. Imaginem o que seria do vosso quarto de hotel em qualquer país latino se o mesmo não tivesse uma porta com fechadura ou em que estado ficaria uma cozinha comunitária completamente equipada depois de um fim-de-semana de competição. No Whithaugh Park na segunda-feira seguinte à prova tudo estava como novo, não há como não respeitar este povo.

Um circuito com cerca de 18 km, duro, divertido e acima de tudo muito seguro, foi o que encontrei num “Bike Park” com infra-estruturas bem pensadas e muito estimadas. Um exemplo para todos os organizadores deste tipo de eventos que por vezes em troca da espectacularidade da prova, esquecem ou simplesmente ignoram o que é na realidade pedalar durante 24 horas.

Esta foi a melhor corrida que fiz até hoje, não foi perfeita, cometi erros mas acima de tudo constatei que é possível. É possível conquistar o pódio que ficou desta vez tão perto, é possível combater estruturas de assistência com duas bicicletas e cinco assistentes por concorrente. Sim é possível sair deste nosso querido Portugal e fazer a diferença, basta acreditar.

Talvez pela extensão do traçado ou motivada pelas surpresas que a organização preparou, como colocar dois “Power Ranger’s” e um “Gorila” no percurso durante toda a noite mas certamente pelos 2000 lumens das minhas Natural Shine não tive sono durante a prova o que me permitiu manter um ritmo regular. As habituais quebras durante a mudança de luz do dia para a noite e da noite para o dia não se fizeram notar. Durante a noite tentei aumentar o ritmo e atacar o pódio mas pura e simplesmente não tinha mais para dar, fiz as adversárias merecerem o lugar que ocuparam, mas acusei o desgaste da semana anterior e uma vez mais me enfureci contra mim mesma e contra a minha impotência de chegar mais alto. Resta-me continuar a trabalhar e aprender com os mais fortes e com os mais fracos sempre com a promessa de tudo fazer para voltar e melhorar este resultado que em boa hora alcancei.

Quarto lugar é a classificação final neste que foi um dos objectivos da época, a todos pelo incansável apoio, aqui deixo uma vez mais o meu sincero e mais sentido agradecimento.

Siga a Sónia em:
sponsorsonia@gmail.com
www.sonialopes.net
Google Plus
Twitter
Facebook

Sag uns Deine Meinung

Kommentare